Jornalismo Local gera Sustentabilidade e Combate Desertos de Notícias
Entrevistas e vídeos com especialistas que ressaltam a importância do jornalismo local e propõem novas estratégias.
Nesse início apresentamos a lista dos vídeos dos entrevistados:
Regina Bucco ANER
Sabrina Passos BLUE ENGINE
PH Ferreira BARÕES
Elaine Silva ALMA PRETA
Adal
HARIOT MKT
Maria Luiza
GRIDMIDIA
Guilherme Ravache
jornalista
O debate sobre as notícias locais em cidades pequenas ou grandes enfrenta fragmentação de narrativas e dispersão cotidiana de informações. Nesse contexto, a apuração do fato real tornou-se um desafio complexo. A inteligência artificial, apesar de produzir conexões adicionais, é incapaz de realizar a cobertura presencial, circular pelas ruas ou compreender as particularidades de uma comunidade. No caso de grandes cidades, são bairros ou regiões como na nossa metrópole paulistana.
Nesse cenário, o jornalismo de proximidade consolida-se como um elemento indispensável. Mais do que registrar acontecimentos, a cobertura local atua como uma engrenagem essencial para a fiscalização, a transparência e a sustentabilidade de diversos ecossistemas urbanos. Incluem-se nesse processo, as informações sobre meio-ambiente em cidades de todos os portes, os dados de segmentos empresariais privados e públicos, além da cidadania, cultura e grupos étnicos específicos. Ou seja, um conjunto que se concentra nos siginificados da palavra sustentabilidade.
Diversos fóruns debatem a importância das notícias locais, a permanência dos jornais regionais e também os veículos de nichos ou de setores específicos.
Nesta matéria resgatamos um acervo de entrevistas com especialistas que abordam o tema por diversos pontos de vista. Eles fizeram parte do encontro da ANER - Associação Nacional de Editores de Revistas, realizado em 2025, na ESPM em São Paulo.
As entrevistas realizadas por Fábio Almeida, para o PauliX News, apresentam vídeos com especialistas, gestores e produtores de conteúdo para apontar direções para quem faz jornalismo real, informativo e hiperlocal, difusores de informações essenciais para a sustentabilidade em grandes e pequenas cidades.
Relevância X Audiência
Ao contrário das coberturas nacionais de grandes veículos, a imprensa regional e de nicho direciona seu foco para as dinâmicas hiperlocais, que responde de forma direta às necessidades do cotidiano da pessoa.
A gente acredita que o jornalismo local é o único que tem possibilidade de ter a relevância necessária para aquela comunidade. O jornalismo local, o que ele consegue fazer? Ele consegue dizer o que está acontecendo na política local, na prefeitura, com a vida das pessoas, a comunidade, os hospitais da cidade.
"O jornalismo local consegue avisar que vai ter vacinação no posto de saúde da cidade. Então, esse jornalismo local, que atende esta comunidade, tem um poder de relevância muito grande. E aí você vai perguntar: Mas e a audiência?
Se esse jornalismo local atende praticamente 100% das pessoas daquela cidade, a audiência dele e a relevância são absurdas."
- Regina Bucco, ex-presidente e atual diretora da ANER
Essa ideia conecta a pessoa ao seu espaço geográfico e social, o que gera um ciclo virtuoso de desenvolvimento local e sustentável. Isso ocorre devido às soluções dos setores públicos e privados estarem relacionadas aos fatos e informações locais e não externas.
No mundo em que a gente tende a dispersar a informação cotidiana, a informação das pessoas que estão ao nosso lado, a possibilidade de você se conectar com as pessoas próximas a você tem um valor incomparável.
“Quando eu era criança, eu tinha uma disputa que era tentar ser o melhor jogador de bola na minha rua. A gente vai crescendo, vira o maior jogador tentando ser o maior jogador de bola do bairro. Às vezes do colégio. Hoje, as crianças disputam o espaço com os melhores jogadores do mundo que estão correndo pela internet”.
- Adalberto Viviani, Consultor de Marketing da Hariot
Resgatar o valor local é a possibilidade de uma vida melhor. Em segundo lugar, é a possibilidade de negócios locais melhores e mais consolidados. Se uma comunidade vai bem, os negócios vão bem e as pessoas vivem bem. O jornalismo local é a base dessa chance de vida melhor.
IA e Credibilidade Editorial
Em uma geração marcada por robôs produtores de notícias e desinformação, o valor de um portal regional está na apuração presencial e na credibilidade. Em vez de disputar a audiência por temas gerais, a estratégia aconselhada por especialistas, para os veículos locais e de nicho, é solucionar os problemas da própria região.
Acho que o jornalismo é relevante em qualquer esfera, em qualquer instância.
“A gente sabe que nesse momento os veículos regionais estão particularmente desafiados por uma grande mudança no modelo de difusão de informações na internet”.
- Guilherme Ravache, Jornalista do Valor Econômico
“Mas eu penso que tem um lado positivo nisso. A medida que a IA mostra que está mais difícil de confiar nas imagens, sons e textos. Quando você consegue encontrar um conteúdo bem feito, ele gera credibilidade, as pessoas tendem a notar sua marca. Então, você começa a criar uma comunidade e essa comunidade tem valor”.
Dificilmente você vai conseguir concorrer com uma IA ou com o veículo que está cobrindo muito mais conteúdo em comparação o veículo regional.
A Informação Hiperlocal e a Distribuição
Para o publisher regional, eu acho que uma grande tendência é você focar no que a sua comunidade valoriza na notícia hiperlocal.
- Maria Luiza Borges, GridMidia e AdSelecto
"Porque a gente tem percebido uma tendência de distribuição mesmo dos mecanismos de busca daquilo que está na sua área geográfica. Então, cubra muito bem o que está acontecendo perto de você, seja uma autoridade naquilo que está próximo, seja a primeira pessoa a informar o que está na sua região, na sua comunidade. Então, seja a voz da sua comunidade. Isso tende a lhe dar muita credibilidade com a sua comunidade."
Estratégia, Propósito e Jornalismo
Para os portais que atuam em bairros, vilas ou na periferia, pensar na sustentabilidade financeira e no futuro do negócio são essenciais. É importante garantir sua independência informativa e apostar na criatividade de formatos.
“Antes da gente pensar em qualquer produto, qualquer escrita ou qualquer pensamento, em termos de produto dentro do seu veículo de comunicação é pensar o planejamento estratégico para além de qualquer coisa, para além de todas as coisas”.
- Elaine Silva, Agência Alma Preta
Planejamento estratégico no meu ponto de vista é tudo para que o veículo possa se fidelizar, crescer com responsabilidade, mais do que isso, pensar fora da caixa.
“Eu falaria para eles não desistirem, persistirem nos seus pensamentos, nos sonhos e não se corromper com nenhum financiamento ou patrocínio (incorreto), porque isso vai fazer com que o seu veículo morra e não se perpetue ali”.
"Então, não desista dos seus sonhos, vá em frente e pense com responsabilidade, pensando sempre num formato onde todo produto que a gente lança, a gente pensa, como a gente planeja para que no futuro a gente consiga consolidar e expandir essas ideias".
Sobre jornalismo de causas sociais, Elaine completa: "A gente não tem que fazer da causa uma dor. A gente não tem que monetizar a dor, a gente tem que fazer da causa um propósito. Quando você lida com a causa como um propósito, você acaba colocando essa causa, esse propósito em várias outras pautas dentro do seu BI [Business Inteligence], dentro da sua pauta. [...]
Elaine é estratégica ao aconselhar sobre a subsistência de jornais locais. "Se eu começo a agir muito pela emoção, eu acabo deixando de lado a razão. E isso faz com que eu foque apenas num único produto, que é o jornalismo. Mas o jornalismo é mais do que a escrita, a gente tem que pensar no jornalismo plural, no Jornalismo 360, que a gente entrega multimídia, que seja criativo".
Elaine também reflete sobre sua atuação e postura social: "Eu acho que isso vai fazer com com que a gente consiga chegar num objetivo, onde a gente consiga falar diversas pautas para além da pauta prioritária, que no nosso caso é a questão racial."
Produção Editorial à Prestação de Serviços
Produzir informação confiável e estruturada abriu um novo mercado para os pequenos publicadores. Os veículos locais e de nicho agora podem atuar como parceiros estratégicos de marcas e agentes da própria região, transformando a comunicação institucional de mera persuasão em informação de utilidade pública ou para empresas locais.
"A sociedade tem uma demanda por jornalismo estruturado, por “publishing”.
Independente de ser feito por uma empresa de jornalismo ou por uma marca, é, que tenha credibilidade. No fundo, a gente está falando de credibilidade e de jornalismo como uma técnica que aprofunda.
- PH Ferreira, diretor-executivo da Barões Brand Publishing
“E nós não estamos falando aqui de viralização, de publicidade, de distração ou entretenimento. Estamos falando de informação. Então, quem é de nicho, quem é local, tem uma oportunidade, não só para cobrir com maior profundidade esse setor, mas como ajudar marcas e agentes locais ou setoriais, a também transformar a comunicação deles de persuasivo, que ninguém aguenta mais, para informacional que é a demanda da sociedade”.
“Então, o jornalismo local, o jornalismo de nicho, nesse mundo tão difuso e tão disperso ganha força enquanto técnica de comunicação, não só para o próprio publisher (publicador), mas para as marcas também locais ou setoriais que precisam informar suas audiências”.
PH Ferreira é otimista, mesmo com as adversidades das tecnologias atuais, ele afirma que "os publishers, por mais recente ou menor que seja, ele pode acreditar que pode fazer a diferença".
Cobertura Digital Integrada e Engajamento
A dependência de um único canal de distribuição ficou no passado. Para reter o público e construir sustentabilidade financeira, os gestores precisam criar pontos de contato diretos e diversificar seus produtos, transformando leitores ocasionais em defensores fervorosos da marca.
"É importante que os players regionais, os grandes veículos pensem em maneiras de ter um contato direto com o leitor, com quem acompanha o conteúdo dele.
Newsletter, grupo de WhatsApp, rede social, tudo aquilo que você conseguir ter um contato direto com a sua audiência vai ajudar você a ter relevância.
A visão de Ravache também não se fica apenas na produção de textos no portal, ele considera diversos meios na rotrina de produção: "No final do dia, não é sobre vender publicidade na sua página de internet. Hoje a gente pode fazer branded content. A gente pode fazer uma série de conteúdos que não se limitam apenas ao que você mostra na página do seu veículo. Então, se você tem um site, essa receita que você recebia de publicidade também pode acontecer com rede social ou com vídeo", completa Guilherme.
Nessa mesma linha estratégica, Maria Luiza expressa sua experiência em estratégia digital, ela também reforça a diretriz para publishers de notícias locais:
"Trabalhe muito a recorrência. Faça com que as pessoas voltem para o seu site. Então, se você está oferecendo conteúdo, tem que fazer com que ela permaneça no seu conteúdo.
Não abandone seu leitor, é o conselho que eu daria.
O Financiamento está na relação direta com o Cidadão
Essa visão de ecossistema aponta conclusões, mas o mundo do jornalismo e da informação de qualidade são valores fundamentais para a garantia de cidades que permitam o desenvolvimento de qualidade existir. As diretrizes de ESG, para empresas privadas e setor público, não são possíveis sem transparência nas ações e cidadãos informados.
Nesse sentido, Sabrina Passos reforça para os publishers locais e setoriais, que o futuro exige personalização e autoconhecimento.
"Não tem receita pronta, o que funciona para um não vai funcionar para outro.
Você tem que olhar para si, olhar para seus dados para poder mudar. Sim, tem caminho, tem futuro, tanto para jornalismo quanto para meios de monetização que são diferentes, receitas diferentes.
- Sabrina Passos, diretora da Blue Engine Collaborative
Sabrina traz o performance emocional como um ativo do jogo dos negócios. Ela incentiva a personalização para conquistar diferenciais. “Cada um tem a sua diversificação. Então, tem que olhar para si, ver onde é que você encontra seu fã”.
Como ela fez a apresentação dos debates do Summit ANER, sua visão é essencial para expressar como os publihers podem avançar. "A gente fala muito isso aqui também nesse evento, o usuário deixar um pouquinho aquele usuário e procurar o fã, aquele que vai pegar a tua proposta de valor e levar, aquele que ama sua marca."
O Empreendimento do Jornalismo
A mensagem final, do experiente conselheiro de marketing, conhecido como Adal Viviani, para quem dirige operações jornalísticas locais ou de nicho é de auto-responsabilidade e ação direta:
"Quando você tem um negócio, independente do tamanho que ele tem, você tem que ser responsável por ele. É fácil responsabilizar os outros pelos problemas que nós temos. Os problemas existem, vão continuar existindo e só tem uma pessoa capaz de dar solução a isso. É você mesmo. É quem está na gestão da operação.
Não adianta terceirizar as responsabilidades e as soluções. É preciso agregar valor para sua operação, assumir que essa operação tem valor, tem oportunidade, quem faz isso é o publisher, é você.
A Constante busca de Perspectivas
As tecnologias seguem evoluindo e poucos meses após a realização dessas entrevistas, os debatedores voltaram a mesa e realizaram uma nova versão do evento Summit ANER, também na ESPM, em São Paulo-SP. Os questionamentos foram reiterados, mas com visões alinhadas aos sistemas de inteligência artificial, que consolidaram o impacto aos jornais locais e temáticos.
Devido a essa mudança tecnológica, os portais locais e setoriais tiveram grande redução de financiamento pela redução de acessos diretos que o principal sistema de buscas, o Google, enviava através de sua plataforma. Os novos debates podem ser assistidos pelo Youtube da ANER por esse link:
O Mais Pelo Jornalismo
A nova iniciativa, MPJ - Mais pelo Jornalismo, da qual o PauliX News faz parte, é formada por diversos portais de notícias locais em várias cidades no Brasil, além de sites que abordam nichos específicos. Todos com proposição jornalística formam uma rede em ampliação criada por Fernanda Lara, sócia da plataforma brasileira I'Max, que opera serviços para assessorias de imprensa e agências de relações públicas.
Frequentemente, Fernanda alerta para os chamados “desertos de notícias”, que são cidades e também assuntos que não tem nenhuma cobertura independente. O que permite que setor público e privado ajam sem que a referida população tenha pleno conhecimento, prática que permite vulnerabilidade ambiental, social e deterioração do ambiente de negócios da iniciativa privada.
Sua pesquisa recente destaca o aumento dos desertos de notícias devido ao fechamento de inúmeros veículos jornalísticos pelo Brasil.



