Como Microempresas Transformam Sustentabilidade em Competitividade
Assista aos vídeos da entrevista com a especialista em ESG, Onara Lima, sobre riscos e oportunidades para MPEs
As discussões em torno da pauta ambiental, social e de governança (ESG) estão passando por grandes mudanças no Brasil. Longe de ser apenas um selo corporativo para grandes conglomerados listados na B3, a sustentabilidade consolidou-se como um fator de competitividade e, acima de tudo, resiliência para os pequenos e médios empreendimentos urbanos.
Durante a FE25, a última Feira do Empreendedor Sebrae, em São Paulo, o debate sobre o tema ganhou contornos práticos com a participação de especialistas, como a consultora Onara Lima, entrevistada pelo PauliX News para essa matéria. Ela é co-autora de publicação focada em conectar o nível de tomada de decisão com a realidade empresarial. Um dos enfoques é demonstrar que tratar a sustentabilidade de forma periférica nas empresas é um caminho que pode levar à obsolescência e a prejuízos financeiros.
ESG e Crises Climáticas
Quando as práticas de ESG não estão inseridas no cerne do modelo de negócios, a empresa perde a capacidade de medir riscos e antecipar crises.
Essa desconexão com a realidade operacional cobra seu preço mais alto diante do aumento de eventos climáticos extremos. O cenário urbano atual exige que o empreendedor esteja preparado para interrupções em cadeias de suprimentos, alagamentos, crises de abastecimento e variações súbitas de custos. Enquanto grandes indústrias possuem crédito, liquidez e até seguros internacionais para absorver choques macroeconômicos, os pequenos comércios e prestadores de serviços operam na linha tênue entre o lucro e a falência. A conexão de ESG com a estratégia do negócio gera resiliência operacional e torna-se uma proteção contra variáveis ambientais, sociais e de gerenciamento.
Pequenas Empresas entre Riscos e Oportunidades
Sobre o perigo de isolar a pauta de sustentabilidade e a urgência de preparar os pequenos empresários para essa nova realidade climática, a executiva e especialista em Estratégia de Sustentabilidade nos Negócios, Onara Lima alertou:
…quando a gente coloca a sustentabilidade apartada do negócio, é justamente o risco da gente não conseguir perceber como ela pode gerar valor. Porque esse valor vai estar tão à margem do negócio que ele não vai ser percebido
O Desafio de Manter a Força de Trabalho e as Expectativas das Novas Gerações
No ambiente das metrópoles, o pilar Social (o "S" do ESG) indica diretamente um dos maiores gargalos das empresas modernas: a atração e retenção de talentos. O comércio varejista e o setor de serviços enfrentam uma guerra silenciosa por mão de obra qualificada. Em um cenário onde múltiplos concorrentes disputam o mesmo profissional técnico ou operacional, o salário nominal já não é o único fator de escolha.
Os pequenos precisam estar mais atentos às suas oportunidades. Vou dar um exemplo. Quando a gente fala do evento climático que ocorreu no Rio Grande do Sul, as grandes empresas já estão ok. Já se reergueram, já se reestruturaram. Entretanto, os pequenos e médios, muitos deixaram de existir. E isso demonstra que o pequeno e o médio tem que estar mais resiliente, mais preparado ainda
A rotatividade de funcionários (turnover) é um dos ralos financeiros mais silenciosos de uma companhia. O custo de demitir, recrutar, contratar e treinar um novo colaborador para atingir o pico de produtividade corrói as margens de lucro dos pequenos estabelecimentos urbanos. Para estancar essa sangria, as empresas precisam oferecer um ambiente de trabalho que vá além do básico, focando no pertencimento e no alinhamento de valores com as novas gerações de trabalhadores que chegam ao mercado. Jovens profissionais demandam processos transparentes, inclusão e a certeza de que a empresa onde trabalham possui responsabilidade com o coletivo.
Conforme pontuado por Onara, em entrevista ao PauliX News, entender essa evolução do perfil da geração é obrigatório para manter as portas abertas:
Falar, por exemplo, de lojas, de comércio, como a gente pode olhar eficiência energética, como podemos olhar o fator de contratação, de força de trabalho num lugar onde temos vários concorrentes? Vários ambientes que vão olhar para esse mesmo profissional, que tipo de atratividade o seu negócio tem? O que que é valor para essa galera que está chegando e que vai fazer o meu negócio acontecer? Como eu posso engajá-los, para que eles se sintam integrados no processo, e sintam orgulho de pertencer? Então, não existe negócio sem pessoas
Na Matemática do Desperdício, o Resíduo é Sinal de Ineficiência, Inclusive para MPEs
Na esfera ambiental e operacional, a abordagem tradicional de gestão de resíduos costuma focar no fim da linha: a destinação correta, a reciclagem ou a coleta seletiva. No entanto, analistas apontam que o verdadeiro ganho econômico está em mudar a perspectiva e enxergar o lixo como um indicador de falha estrutural.
Se uma loja, restaurante ou pequena confecção gera um volume expressivo de sobras, perdas de material ou refugos, significa que houve desperdício de dinheiro na compra de insumos, no uso de energia e no tempo de trabalho. Gerenciar o resíduo após sua criação é apenas remediar uma consequência. A verdadeira eficiência está em mapear a jornada de produção e os insumos utilizados, ajustando o processo para que o desperdício nem venha a existir. Menos perdas na origem significam, diretamente, menor custo de produção e maior rentabilidade operacional.
Essa inversão de ótica foi defendida de forma enfática por Onara ao associar o controle de resíduos ao sucesso financeiro:
Se eu estou gerando muito resíduo, alguma coisa está sendo ineficiente no meu processo. Entretanto, se eu olho para esse resíduo e eu entendo que se eu melhorar o meu processo. Ou seja, somando a redução do consumo de insumos, a melhoria de processo e a melhoria na redução de geração de resíduos, será que isso não é sobre melhorar também financeiramente meu resultado?
Associativismo, Ecossistemas de Apoio e a Democratização do Conhecimento
A transição para um modelo sustentável e eficiente, contudo, é complexa demais para ser realizada de maneira isolada. O pequeno empresário urbano dificilmente possui recursos para contratar grandes consultorias de governança ou implementar tecnologias de ponta por conta própria. É nesse ponto que o conceito de ecossistema em rede e o associativismo se tornam indispensáveis.
Integrar cadeias de valor interconectadas, participar de redes multisetoriais e buscar o apoio de órgãos de fomento, como o Sebrae, permite que pequenos negócios ganhem o poder de barganha e a escala que antes pertenciam apenas às grandes corporações. Juntas, as MPMEs conseguem acessar novos mercados, compartilhar soluções de logística reversa, baratear custos de transição energética e ocupar espaços de relevância no debate econômico.
Para que essa engrenagem funcione, o conhecimento sobre sustentabilidade precisa deixar as salas de reuniões fechadas do mercado financeiro e ser traduzido em uma linguagem prática, amigável e acessível para todos os níveis da sociedade. Afinal, a pauta ESG só atinge seu potencial real quando conecta a alta governança das organizações à base da economia, que no caso brasileiro são as empresas de micro e pequeno porte.
Fechando a entrevista e refletindo sobre o papel das redes de apoio e do compartilhamento de conhecimento prático, Onara Lima concluiu:
Não adianta um pequeno e um médio querer remar contra a maré sozinho. E quando eu tenho a capacidade de entender que conectando esses negócios, conectando essas soluções, elas vão se tornar muito mais robustas e certamente elas vão ganhar atração para que elas possam escalar e chegar nos lugares onde eventualmente sozinhas elas provavelmente, infelizmente não chegariam, e por isso a importância do Sebrae, que busca essa conexão, essa interconexão, essa potencialidade entre negócios que precisam se integrar para tomarem um lugar de relevância
A Visão ESG
Onara Lima em sua co-autoria busca demonstrar que há diversos canais de integração de valor, através da sustentabilidade para a estratégia dos negócios, não importa o tamanho ou segmento da empresa.
O livro Visão ESG - Negócios Resilientes traz justamente esse conjunto de pontos de vista, a fim de entender e encontrar oportunidades para transformar regulamentações, condições sociais e culturais em novos campos de valor para a empresa e a marca perante a sociedade, seus consumidores e também seus acionistas.
Nesse sentido, Onara Lima conclui e comenta o objetivo de realizar a publicação:
Democratizar o conhecimento, com a acessibilidade, com linguagem amigável, e principalmente despertar essa curiosidade intergeracional e intersetorial. Esse é o maior objetivo. Porque a sustentabilidade, ela só é potente quando a gente tem a capacidade de conectar tudo isso para que a gente consiga escalar, para que a gente consiga compreender e para que a gente consiga, de fato, colocá-la no lugar certo, com a velocidade certa, com o tom certo e principalmente com a direção certa
Confira outras matérias do PauliX News sobre o livro Visão ESG Negócios Resilientes:
ESG é Competitividade: https://paulixnews.sampa.br/noticia/como-microempresas-transformam-sustentabilidade-em-competitividade
ESG e Novos Mercados: https://paulixnews.sampa.br/noticia/esg-nos-negocios-e-essencial-para-microempresas
Conexão Financeira e Social: https://paulixnews.sampa.br/noticia/o-mercado-financeiro-na-conexao-do-impacto-social-e-ambiental
Sustentabilidade não é somente sobre florestas: https://paulixnews.sampa.br/noticia/presidente-do-sicredi-o-segredo-do-esg-nao-esta-na-floresta-mas-na-economia-inclusiva-dos-pequenos-negocios-como-os-da-avenida-paulista



